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O casal

 

     Fugir tornou-se um hábito para ela. Casou-se nova e já com ventre cheio. Talvez por isso acreditasse que  por tal antecipação do deleite teria despertado a ira dos deuses.

Como já não bastasse, sua infância fora com poucos recursos. Com esforço conseguiu terminar o cientifico, chegando até entrar no mundo dos ditos 'letrados'. Possuía uma inteligência mediana; arranhava no francês e no inglês. Porém tais conhecimentos não lhe foram úteis. Seu legado era mesmo 'do lar'. Talvez por isso fora cada dia se esquivando mais , fugindo de si mesma. Corria de tudo que lhe dava prazer, pois à ela não lhe era permitido ser feliz. Não fora aplacada pela fúria dos deuses, tanto que  se casara com um homem, eu diria até, um tanto violento, o que completaria sua sina de sofredora.

      Existirá um prazer mais estranho que o prazer do sofrimento?

      Escolhera um marido justamente que era o seu oposto. Este indivíduo sim era dado aos prazeres mundanos. A ele lhe fora permitido todos os vícios. Afinal, viera de uma família abastada, digna e  portanto concluira dentro de sua mente insana que  deus o encaminhou para esta vida  para brilhar. Enquanto ela, nascida para esconder-se.

     Assim passaram longos anos juntos. Ele sempre em dia com  seus desejos enquanto ela sempre fugindo de tudo.

     O final da história não poderia ser diferente; ela acabou morrendo aos 45 anos de câncer. Alguns parentes dizem que era fuga, outros que era muito rancor guardado  em seu coração . Para mim, acredito que seja o seu próprio brilho que tivera que sufocar, talvez ela guardasse em seu peito uma beleza que à ela não lhe fora permitido mostrar. Ou quem sabe, seja a morte pela morte, sem razão e tampouco explicação.

     Quanto ao marido, o onipotente, percebeu  que não era tão onipotente assim, aliás pelo contrário, descobrira depois que sua força vinha dela. Tentou encontrar outras mulheres, porém fracassara, sobretudo porque descobrira que na realidade não procurava uma outra mulher e sim a mesma mulher nas outras mulheres.

      O  sofrimento maior foi quando numa manhã qualquer ao entrar no banheiro para fazer sua higiene matinal, olhou-se para o espelho.... e o que vira não agradara nem um pouco, sua imagem foi se deformando de tal modo que suas rugas pareciam cicatrizes, feridas abertas, por um instante pensou ter enxergado sua alma, e o que viu foi um velho, medíocre e egoísta. Assustado caiu no chão e  começou a se encurvar, encurvar até chegar na posição fetal. Sentiu pela primeira vez o medo. Permaneceu no chão do banheiro por algumas horas.

     Desta triste história, há um aspecto positivo, o descobrimento do seu amor pela falecida. Mas como ressuscitá-la para dizer a ela que fora seu grande e único amor. Agora só restava um corpo as vias de putrefação, já não era mais sua amada, era apenas um corpo, uma carne, como tantos outros que morrem todos os dias.

     E agora ? Como terminaria o homem 'onipotente fracassado'? Decidiu no meio dessa solidão pôr fim ao seu sofrimento abreviando sua vida.

     E assim termino minha história, lembrando duas célebres frases de Milan Kundera

 

"Atravesso o presente de olhos vendados, mal podendo pressentir aquilo que estou vivendo... Só mais tarde, quando a venda é retirada, percebo o que foi vivido e compreendo o sentido do que se passou..."

 

Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida, já é a própria vida."

 

 

                                                                                                                    Ere

 

dedico este conto às pessoas que tem a ilusão que nunca erraram e à todas as mulheres que tem a ilusão de serem Macabeas (Lispector, Clarisse), Macabeas não existem, são apenas fantasmas. Todas nós temos a nossa hora da estrela, mesmo que póstuma.  

 
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