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os cidadãos e Os Grandes Homens

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Eram exatamente 13h30min quando olhei o relógio, estava eu no ponto de ônibus, ao lado do maior shopping da cidade, esse que fica em frente à faculdade, era o dia que almoçava fora antes de ir ao estágio, quando o tempo fechou na região. Não costumo andar com guarda-chuva, carrego demasiados livros e algo a mais faz diferença, além do mais, os livros que pegara emprestado da biblioteca não poderiam sofrer danos. Resolvi comprar um baratinho, do tipo quebragalho, percebia-se que era descartável, que não duraria mais que duas neblinas, mas não custava muito e o tempo nem ameaçava tanto, seria só por precaução.

A senhora a quem comprei foi um amor, as rugas em seu rosto e sua aparência enfastiada denunciavam seu esforço, com alguns balangandãs sobre um lençol estendido no chão e uma menininha a seus pés, buscava alguns trocados. A menina era humilde, mostrava-se limpa e demonstrava muito afeto pela anciã, sobre suas mãos havia um prato de papel alumínio e dentro uma mistura de comida. Certamente a senhora, que pelo feitio demonstrava ser sua avó, esperava mais alguns trocados para comprar seu almoço e poder desjejuar, suas feições denunciavam apetite.

Minha condução estava a demorar quando, de repente, três homens fortes, daqueles que treinaram para nos defender dos mal feitores e ladrões - mas que quando aparecem transformam qualquer inocente em grão de mostarda -, se aproximavam e uma angústia invadira a alma. Aquela postura, aquele olhar de quem fazia questão de impor descomedido respeito me aterrorizou, mais do que os jovens que se drogavam à noite no beco da faculdade (engraçado é que eles trabalham a nosso favor), passaram por trás de mim e um arrepio denunciou que algo me tocava a nuca, era o primeiro de poucos respingos de chuva...

Ouvi gritos, gritos de uma dor que sangrava dentro do peito. A velha senhora corria em passos mancos, mas a sonora aflição saíra de sua netinha, seus oito cm de apoio, aquela maratona era assistida por todos que na avenida estavam presentes, angustiados, compadecidos e esperançosos como se assistissem a São Silvestre, ainda tínhamos esperança ovacioná-las, mas aqueles homens caminhavam e pareciam tremer o chão, causando desastroso temor.

Os berros continuaram piorres do que dez sirenes de ambulância ligadas em alerta, já não lembrávamos das conduções e de nossos destinos daquele dia, quando de repente aquela pequena notável pareceu respirar gotículas impuras do mundo tropeçou e caiu, senti a queda de temperatura dos corpos que estavam em minha volta, mas não passávamos de platéia, nada fizemos, estávamos consumidos pelo medo, não tínhamos como defendê-las. Elas estavam a cometer erros, mas diante das impossibilidades sociais, da imobilidade, fora a última alternativa. Todos acreditavam que Deus não estava considerando algo pecaminoso. Sentimo-nos tremendamente covardes.

Feijão, arroz, espelhos, brincos, farofa, anéis, guarda-chuvas, macarrão, mochila rasgada, frango cozido, rodelas de tomate, pilhas, controle remoto, jujubas, trufas, balas diversas, DVD’s piratas, a senhora e sua a honra, a nossa compaixão entregues ao chão. Veio a chuva forte e o que havia ingerido deu-me indigestão, os livros todos molhados, agora já estendidos. Não fui ao estágio, não sei se todos que estavam presentes seguiram sua rotina.

Hoje pela manhã esperei até o mesmo horário, almocei novamente no shopping, mas não vi a tal senhora, pensei que talvez estivesse no outro lado da cidade, tentando correr menos riscos, com menos dois centímetros. Mas o dia fora tão desagradável quanto o anterior, entretanto o sol esteve presente para testemunhar. Enquanto abria a bolsa para procurar meus óculos escuros, um rapaz puxou-me o colar e deixou-me de brinde um grande hematoma. Os homens grandes não estavam presentes para colocar-me medo e prendê-lo...

Encontrei-me com a velhinha à tarde no hospital onde estagio, fiquei radiante por saber que estava aparentemente bem, fiz questão de dar-lhe atenção e logo disse:

- Desculpe-me por nada ter feito, quando ela me respondeu:

- Trabalho com honestidade, nunca roubei ninguém, já me disseram que algumas coisas que vendo é contra lei, mas infelizmente são as únicas coisas que deu para comprar, não tenho problemas em conversar sobre meus erros, se corri foi por medo daqueles uniformes.

Não pude conter as lágrimas. A senhora fez uma pausa e em seguida:

- Talvez só tenhas medo daqueles homens grandes, és linda moça, tens condições, e estás nesse posto público a trabalho, mas ontem quando me levantei da queda vim direto para este hospital, depois de uma longa fila, outra farda tive que enfrentar, era limpa e transmitia paz, mas olha pra mim, o que passo pra ti?

(Pausa)

Faz-me um favor, querida?

- Claro, diga-me!

A senhora colocou a mão no bolso, o vestido ainda manchado de sangue, pegou uma nota de cinco reais, a que eu tinha dado na manhã anterior e disse-me:

- Compra-me um suco para o desjejum e um prato pronto para o almoço de minha netinha...

 
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