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Depoimento

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 - J., bilhete de identidade X, segurança social Y, número de identificação fiscal Z. Casado, três dependentes e um independente, formado na Universidade de Coimbra em mil novecentos e noventa e nove, trabalha em engenharia na firma Construções Além Mar S.A desde Dois mil e quinze.

- ...

(Parece Inverno.)

- Éramos quatro. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Morávamos em quatro assoalhadas pequenas, apartamento velho, construção dos anos cinquenta com pouco restauro. O meu pai trabalhava num restaurante junto à estação de Santa Apolónia e de vez em quando levava-me a ver a luz do Tejo, a ver os comboios passar...

- Prossiga, disse a voz.

(É Inverno, tempo próximo de Natal. O vento fustiga as árvores quase despidas da Avenida. Luzes no trânsito, que se faz sentir frenético e louco.)

-...?

- Ah... sim. Estudei sim, e em escola pública. No regime antigo, com separações. De recreios, “meninos” e “meninas”, com bandeira e hino e províncias ultramarinas, orelhas de burro e austeridade de reguadas. E não guardo mágoa. Hoje é tudo sem cega-rega, oitentas de oito. Os fins-de-semana, esses passava-os de quinze em quinze na “terra” com os meus avós. Gostava de me levantar cedo e sentir o cheiro da terra...

-...

(Passam alguns transeuntes e olham enquanto falo no telemóvel. A mota e o carro imobilizados e vencidos alguns metros em diante...)

- ...?

- A Mara. Definitivamente. Amara-a e com um ímpeto que não julgava ser possível. Conhecemo-nos caloiros de Coimbra numa festa da Universidade. Casamos ainda antes de terminar o curso e tivemos rapidamente todo o almejado. Depois... depois anoitecemo-nos de casamento gasto, a coisa terminou. Após isso tive umas quantas outras mulheres e acontece sempre o mesmo: Ao fim de um tempo, termino, fujo. Não consigo estabilizar uma relação.

(Está muito bem para a sua idade a senhora de óculos escuros que me interpela. Quer saber se sei. Se sei onde fica a Miguel Bombarda. Que está na pressa e há-de haver meio rápido de lá chegar...)

-...?

- Incidentes acontecem. Não me posso queixar de grandes vícios. Fumo e bebo socialmente, fanatizo-me com o Benfica e álbuns antigos de Banda Desenhada. Acho que é tudo, uma calma de não haver mais. Mas aquele dia foi excepcional confirmação de regra. Se bati? Não sei quem bateu primeiro, sei apenas quem insultou primeiro... Horas depois estávamos dois em Santa Marta, disputávamos escoriações e algumas costelas partidas. Não... não voltei a meter-me noutra.

(O tempo urge, o aviso sonoro informa que estou a ficar sem bateria. A chuva bate no carro. A chuva bate no motociclo despojado de corpo. A voz ouve-se, emergindo travestida metálica e impessoal do aparelho)

- Desculpe mas só poderei tomar conta da ocorrência e chamar o INEM, só o poderei fazer quando me fornecer dados mais precisos sobre si. Por exemplo, não me disse ainda o que é que gosta de fazer nos tempos livres, se tem animais de estimação, se teve varicela, sarampo e papeira quando pequeno, se tem autores preferidos (e caso tenha, quais...), se pretende sair do País nos próximos seis meses, se é a favor ou contra a eutanásia, se tem partido, credo, religião ou coisa que o valha... É que, sabe, peço desculpa mas... nos tempos que correm nunca se sabe, há muitos embustes. E não podemos ir logo assim confiando em qualquer um que liga aqui para o cento e doze.
 
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