A Lua, esperança silenciosa da noite, tocava elegantemente nas pacatas águas do lago dos Amores, enquanto Matilde, inclinada sobre um rochedo escarpado, se preparava, balançando-se gravemente para a frente e para trás, para findar o seu eterno sofrimento. Matilde abrigava no coração, mutilado e atormentado, o desespero de nada poder fazer contra a vontade do Destino. E com efeito, aterrorizada e apática, acompanhava, em oscilações lentas, os espasmos de livre arbítrio do seu corpo: o relógio biológico dava o último tic-tac, consonância perfeita de hormonas, obrigando os estímulos a serem cada vez mais repentinos. E em súbito, surpreendentemente, a cada estímulo fazia-se uma melodia, ou simplesmente uma prosa do bater do coração. O zunido ouvia-se a quilómetros de distância, enquanto a ejaculação do sangue que corria nas suas veias rompia a barreira espaço-tempo, criando o Universo numa espécie de esfera, onde o tempo está perto de perder o sentido.
Matilde, heroína do povo por razão, habituada à dor de sofrer, ergueu-se na vida cheia de convicções. Humildade, honestidade, solidariedade, afecto e ternura eram as cinco fundamentais convicções que fizeram desta pobre senhora, órfã desde criança, a Voz de um povo.
Todos os dias, a Santa Matilde, tal qual a apelidavam na vila de Volfrão, vila que a viu nascer e crescer, algures no norte de Portugal, logo pela manhã, ao nascer do primeiro raio de Sol, ia ajudar os mendigos da Praça Central da Vila, oferecendo-lhe um pouco de amor, compaixão e ternura. Seguia-se a visita a casa das pessoas mais senis da Vila, a fim de as ouvir e apoiar, e sem pressas, acolher a todos os seus pedidos, ou meros desejos. Os seus actos diários eram considerados dádivas de Deus, ordens de um ente superior, e ainda agora, recordando por entre memórias, o mesmo se diz, porém, agravado pelo tempo, fazendo-se dela a Santa do Povo, ou por nome Santa Matilde.
O mito começou no dia da sua morte, um estranho suicídio no lago dos Amores, ao qual certas vozes chamaram, não de suicídio, mas o completar de uma obra divina. A verdade é que, desde esse dia, sete de Agosto, nascia em Volfrão a História da Santa Matilde. Desde então, reza a história que todos os anos, dia sete de Agosto, aparece a sua imagem no lago dos Amores, derramando lágrimas divinas que transformam as águas do lago numa porção da Eternidade. Mas…, e como nas histórias existe sempre um mas, nesta também o há, e naturalmente, estraga, como habitualmente acontece, todo o enredo da história. Pois bem, mas ninguém sabe ao certo onde fica esse lugar a que chamam lago dos Amores, ou talvez saibam: quem sabe?
“ A Eternidade é viver na esperança da sua existência!”


