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o concerto

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Maria Amélia morderia um lenço, mas nem isso tem que seja digno dos seus dentes ainda fortes apesar de ir entrada em anos, que serão quarenta e oito em trinta e um de Agosto. Um lencinho de pano que se desfiasse a cada mordida do seu desespero.

Maria Amélia a abrir e fechar, vasculhando, a mala de verniz enorme que tem sobre os joelhos, uma coisa desmesurada, moda neste inverno, um saco disforme com muitas fivelas e dois fechos que nem levam a um bolso, são apenas enfeite. Um malão que lhe custou uma fortuna apenas pela razão de ter um nome escrito aqui e ali por todo o forro, que nem é de seda e seria dobrando.
É desse malão que Maria Amélia retira uma caixinha azul com muitos dizeres, que ela já não lê a não ser que encavalite os óculos no nariz que o dela é curtinho e com abas carnudas entre dois olhos muito azuis. Uma caixa de comprimidos, que está na hora da droga para que quando ela vier possa dizer-lhe com muita calma: minha cabra, e etc. As unhas que ela tem envernizadas de vermelho, longas, rasgam o celofane que cobre a embalagem e depois, segurando na pontinha de dois dedos, como se fosse coisa que lhe desse nojo, mete na boca uma pastilha cor de rosa e engole água a sacudir a cabeça para trás de modo que quase se nota o comprimido nadando no bochecho de líquido acompanhando os movimentos dos anéis, na garganta.
Maria Amélia sempre a mascar a pastilha elástica a saber a morango, o que lhe faz nos cantos da boca uns montinhos de cuspo que ela vai lambendo com a língua, e lhe retira o viço ao batom vermelho.
Maria Amélia sentada na esplanada a acalmar o desespero de estar esperando aquela parva da Irene que prometeu que viria entre as nove e as nove e um quarto e já são quase dez e o diabo da amiga que nem vem, nem lhe permite deslocar-se dali, da mesa do café onde está sentada: a do canto, junto à buganvília – que se sair dali a outra perde-se, há-de anunciar: tu faltaste ao encontro, olhei e não estavas sentada na mesa que tínhamos combinado. Um enredo.
Maria Amélia esperará porque hoje prometeu a si mesma que iria dizer-lhe umas quantas verdades.
Fará pois o sacrifício de a aguardar na mesa combinada se bem que estejam a cair uns pingos, coisa de nada se o empregado abrisse o guarda-sol. Mas àquela hora… E Maria Amélia vai mastigando a pastilha elástica que já quase não sabe a morango.
E toca o telemóvel. Maria Amélia atende.
- Sim…
- …
- Paciência… fica para outro dia.
- ….
- Não me importo nada. Vai, sim, vai.
Maria Amélia a mentir com todos os dentes e, do lado de lá, a outra continua a falar.
- ….
E Maria Amélia, fula, mas numa voz que procura suave:
- Então que te divirtas…
E desliga.

Maria Amélia, contará, depois, a uma e outra amizade:
Aquela grande cabra, que nem havia nada que amaciasse a minha fúria naquela noite. Então, liga-me a dizer que encontrou a Gabriela com bilhetes para o concerto e deixa-me pendurada…
E, quando contar isto, há-de buscar um lenço na mala e não há-de encontrar.

Maria Amélia grita para o empregado a pedir a conta:
- Olhe, se faz favor…
E paga a cerveja que bebeu sabendo que não devia fazê-lo por causa do comprimido. Que se lixe, terá pensado.

Maria Amélia a ligar a TV ao pequeno-almoço, costume que tem depois que vive com a Irene. Está a dar o noticiário. Imagens de uma sala devorada por um forte incêndio. Que foi uma tragédia a noite passada, diz o pivot com voz embargada. Que ardeu o teatro todo.
Não houve sobreviventes na sala onde decorria o concerto - é assim que Maria Amélia sabe.
 
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