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O homem bomba

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Ao sinal, comecei a andar. Mal havia soado o “bip” de início e eu já estava na metade da rua. O fone de ouvido, apesar de incômodo, era necessário para estar ciente das coordenadas, ditas em detalhes pela voz rouca do coordenador do ataque. O suor escorria sob minhas roupas pesadas, as quais não tinham tais características por acidente. Tudo que eu vestia nada mais era que uma camuflagem, fazendo-me, ao passo que permitia me misturar entre as pessoas, ao mesmo tempo, não deixar que notem os explosivos fixados ao meu corpo. Num sinal positivo de que o treinamento funcionou, eu estava imune aos possíveis incômodos das fitas adesivadas à pele, da mesma forma que o calor extremo, por mim, era ignorado.












Após algumas centenas de passos dados, eu já me encontrava na praça mais movimentada da cidade. Ao redor, milhares de pessoas e carros a cada espaço de meia hora. Prédios, com suas fachadas visualmente poluídas, imersos em tantas propagandas, todos construídos ao longo dos quarteirões e rodovias que margeavam a praça de dimensão colossal, tornavam o ambiente insalubre ainda mais sufocante. Até então, tudo transcorreu como o planejado. Sentei-me à beira do imenso chafariz central, perto das dezenas de famílias. Aguardei até que tudo estivesse feito.








O ferimento à bala da noite anterior já não mais doía. Nada mais importava. Avistei, numa rápida depreciação da paisagem tumultuada, a presença dos meus companheiros, todos em suas devidas posições, como fora combinado. Tendo, ao todo, seis componentes, nosso grupo se organizou de maneira a formar o desenho de um pentagrama, onde eu, o mais próximo da área de lazer das crianças, fixava posição no centro do polígono, o núcleo que simbolizava a natalidade de nossos inimigos futuramente mortos.









Através de nossos, nada sutis, porém não notados, comunicadores por ondas de rádio, trocávamos palavras que julgávamos necessárias àquele novo limiar, mas sem perder a atenção quanto a qualquer ato que ameaçasse o projeto. Um pequeno garoto, segurando um barbante preso a um balão flutuante, chegou a falar algo, fitando meus olhos, mas minha meta não permitia interação com civis, fazendo-me estar limitado a desviar o olhar.











No ápice da espera, fui interceptado por um homem estranho. Ele me derrubou rapidamente, algemando-me e me levando embora, assim como os demais que conduziam o plano. Já no carro do esquadrão anti-bombas, olhei pela janela e vi os outros sendo inseridos em outras viaturas. Não sabíamos como a operação caiu no conhecimento dos policiais, mas, à essa altura, isso não mais importava. Na cadeia, nossas faces estavam amareladas e tristes. Um a um, nós sete, os executores e “a voz”, éramos levados até uma sala de interrogatório, até que então chegou minha vez.










Um homem de porte gigantesco trancou a porta por dentro e insistiu, de forma violenta, em querer arrancar palavras minhas sobre o extermínio. Em vão, eu era surrado e insultado, sem nada fornecer ao sujeito ameaçador. Quando toda a ira por não conseguir me fazer falar estava no ponto alto, o homem chutou minhas costelas repetidas vezes, até que eu vomitasse uma mistura de sangue e fluídos esbranquiçados. Eu estava no chão, com o rosto sobre a poça hemorrágica, enquanto o detetive se afastava até a porta, ajeitando sua gravata, solenemente, recompondo sua respiração ofegante. Ele saiu e me deixou sozinho por alguns minutos, até que alguns policiais viessem me arrastar até a cela.












Mesmo na certeza de que as coisas não caminharam como o planejado, pois o diretor da execução também fora preso, juntei minhas esperanças na intenção de realizar o plano. Alguém não deve ter resistido a sessão de tortura e revelado a posição da “voz”, mas dentro de minha calça estava o objeto não notado pelo guarda: o saco plástico regurgitado, propositadamente, na sala de interrogatórios, contendo as peças essenciais para minha vingança. Eu não tinha mais o centro urbano, mas eu tinha um núcleo de segurança pública. O vigia passou pelas grades a me observar, mas já era tarde, pois o detonador já estava montado. Como eu esperava, o depósito de provas foi pelos ares, assim como o prédio inteiro e todos que nele estavam. A rua foi devastada. O plano estava completo. Só me faltava saber que o paraíso não é feito para homens-bomba. Agora só me resta esse inferno, repleto de todos nós, iludidos por uma seita idiota.
 
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