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Devaneio

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Dormiu. Sentiu-se sozinho como uma única nuvem no céu. Desligou o rádio, mas a música tétrica continuava ecoando em seus ouvidos feito uma marcha fúnebre. O isolamento o acossava, espremia violentamente o seu coração. Ergueu os olhos, tentou silenciar os gemidos da alma e os gritos da solidão.

 

Abriu a porta, subiu rapidamente a escada que lhe levava para o terraço. Um Sol majestoso pendurado no céu eternamente azul iluminava a sua inquietude, diante da vida.

 

Não pensou, mas um filme, embora, repleto de imagens ofuscadas se processou em sua mente. Momentos nos quais ele perdeu, porque de fato ele nunca havia encontrado as respostas certas para as suas perguntas nunca questionadas. Seus braços estavam abertos, lembrando um dos ladrões que morrera crucificado ao lado de Cristo. Respirou fundo e imitando um avião, ele passou a correr pelo terraço.

 

Decepcionou-se, não podia mais brincar, não podia mais sonhar em voar. Sentou-se no peitoril do terraço, as pernas finas suspensas no ar eram semelhantes a dois pêndulos que balançavam de um lado para outro.

O mundo era seu. As nuvens passeavam lentamente no céu, o vento balançava os galhos das árvores, deitava ao chão as roupas dos varais. Um ponto negro riscava a moradia celestial. Uma alegria lhe afugentou o medo. Lágrimas irrigavam o seu rosto. Ele apenas queria voar, era necessário percorrer o mundo. Ao seu redor prédios, casas, vidas resumidas em solidão.

 

Seu corpo foi lançado no ar. O pulmão cheio de vigor trouxe-lhe coragem. Queda livre, não havia o que temer, logo se sentiu leve, era uma pluma flutuante. O voo do paraquedista que nunca quis tocar na terra.

As nuvens sorriam, uma delas sugeriu que ele repousasse o seu corpo durante alguns minutos. Deitou-se, fechou os olhos, apenas o zunido do vento cantava em seus ouvidos, melodia para acossar a melancolia, melodia para prolongar a sua felicidade instantânea.

 

Levantou-se, voltou a voar, as nuvens abriram espaço permitindo a uma única visão. A cidade vista do alto, nada mais é do que um imenso tapete de concreto, em que as vidas pífias e mirabolantes se cruzam , acham-se, perdem-se e se amam diariamente.

O tempo se despedia, logo, as primeiras luzes foram acesas. Sobre a torre da igreja, ele pode concluir “Cada ponto dessa cidade é um coração apagado’’, mergulhou no ar outra vez. Observou tudo, os rios que cortavam as ruas, as praças que recebiam as crianças, os pássaros e os seus malabarismos na busca de um horizonte perfeito.

 

Vidas que corriam sem saber a direção certa da ventura nossa de cada dia. A noite se aproximava, as estrelas não ocultavam as luzes da cidade. Uma Lua gigante era um ponto branco pincelado por Deus. O paraquedista a beijou. Ela educadamente sorriu, reconheceu o seu devaneio.

 

É tarde...

 

O terraço era a sua pista de pouso. O voo havia chegado ao fim. O solene é momentâneo, mas, as lembranças são perenes. Olhou para o céu, avistou a solidão. Novamente, e a vida seria a mesma.

 

Acordou. Sentiu-se sozinho como um único pássaro no céu. Ligou o rádio, nenhuma canção ecoava em seus ouvidos. O isolamento o fazia bem, alegrava seu coração. De olhos baixos e melódicos gemeu , sua alma gritava, pedia solidão, pedia socorro.

Debruçado sobre o peitoril da janela enamorou a noite. Ele sabe que depois de qualquer devaneio, a vida sempre nos oferece a impoluta solidão.

 

O resto é só tristeza. Lua no céu, estrelas rutilando para ninguém... Tudo é solidão, devaneio.

 

 

 

 

 


 
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