Um resto de café frio - Volume 2: "Submersão"
(introdução de Um resto de café frio - Volume 2: Submersão.
Este livro não é a realização de um sonho. Nunca sonhei, antes de começar a escrever qualquer coisa legível que, um dia, publicaria um livro. No princípio, escrever poesia era muito difícil para mim. Tinha a noção muito clara de que ser poético envolvia exposição sentimental, e eu, no que entendia de mim mesmo, não era uma pessoa sentimental. E, perdido nesse devaneio, escrevi o que considero meu primeiro poema:O fim da poesia. Com ele, perguntei a mim mesmo: afinal, para que se presta, qual é a finalidade da poesia? E esse questionamento levou-me a outros, e sempre que tentava dar-lhe uma resposta, e buscar imagens, figuras, conceitos, o universo todo – apelei até para a metafísica – que me dessem uma resposta, nada. Contudo, essas tentativas foram sendo publicadas, madrugada após madrugada, em um espaço na internet: um blog, que é fácil de fazer, e dá essa ideia de periodicidade, de “uma coisa que avança com o tempo”. Batizei-o em homenagem ao meu fiel companheiro do silêncio das madrugadas. Ou melhor, o que sobrava dele: Um resto de café frio.
Para dar um “fecho” à esta questão inicial, que ainda não pode ser solucionada a contento, juntei os primeiros trinta e nove poemas, reuni-os em um volume e dei-lhe a aparência de um livro: Um resto de Café Frio – Volume 1, “A fonte das coisas imperfeitas”.
Não foi o suficiente. A pergunta ainda está aqui, e sem sombra de uma resposta. Abandonei o cosmos e permaneci aqui, na Terra, mas não em terra firme. Fui buscar em alto-mar uma forma de dizer o que eu queria dizer. O resultado dessa aventura foi uma perplexidade ainda maior, uma ponta de angústia e trinta e dois poemas neste Volume 2: “submersão”.
Ter dois volumes de poesia definitivamente não era o que eu sonhava. Não se planeja coisas assim, nem muito menos se sonha com elas. Essa pergunta, que me ronda e me tira o sono – no estrito sentido dessa expressão – me custará a vida. E vamos ver quantos volumes mais ainda vou preencher, e por que águas vou me aventurar para saber até onde esse resto de café, já frio, me vai levar.
No fim das contas, percebi-me apaixonado pela poesia, e esqueci – com um certo alívio – a vontade de ser puramente racional. E não tenho muito de que me queixar. Mesmo sem saber o que é, nem para que serve, a poesia é uma paixão, um vício. Como a cafeína.


