A desarticulação da forma romanesca tradicional apresenta-se, em Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, logo na sua classificação como gênero. Caracterizado como invenção, ao invés de romance, pelo próprio escritor, esse livro figura-se, como escreve Haroldo de Campos, como “um grande não livro de fragmentos de livro” (CAMPOS:1990, P. 10), ou seja, Oswald inventa uma nova forma de se escrever romances.
Optando pela bricolage, processo de criação cubista no qual são colados diferentes fragmentos, Oswald mescla fragmentos de diversos gêneros textuais, caracterizando um processo antropofágico, de devoração de toda uma tradição literária, assimilação e crítica, a qual, no caso, gera um processo metalingüístico, ou seja, o livro criticando o livro.
Nas 11 partes que constituem o romance, pode-se perceber uma contínua mudança de gêneros textuais, evidenciando-se assim a ojeriza do autor pelas formas lineares das criações literárias tradicionais. Toda a história da criação do gênero romance, o qual passa pela certa, diário, livro de viagens, memória e outros gêneros, apresentam-se com gêneros essenciais para a crítica de Oswald ao romance e à própria burguesia, a qual se faz através das aventuras de um burguês inconformado, um anti herói: Serafim Ponte Grande. Como escreve Haroldo de Campos, encontra-se em Serafim Ponte Grande
“(...) uma técnica de citações estrutural, a vocação mais profunda da empresa oswaldiana: fazer um não livro, um anti-livro, da acumulação paródica de modos consuetudinários de fazer livro ou, por extensão, de fazer prosa (...)” (CAMPOS:1990, P.10)
Os fragmentos utilizados na bricolage de Oswald mesclam-se nas grandes unidades, as quais sugerem quase que pequenos livros, devido à sua quase independência entre si, Por exemplo, pode-se ler essas unidades sem seguir a ordem apresentada, que, ao final da leitura, tem-se o sentido geral da obra.
Em Alpendre, encontram-se, além de pequenos fragmentos nos quais mesclam-se poesia e prosa, um ato teatral: Vacina Obrigatória. Folhinha Conjugal é formado por um diário e por um fragmento maior: O Terremoto Doroteu, formado por diversos fragmentos de confidências. Testamento de um Legalista de Fraque é formado por tipos vulgares de escrita, como abaixo assinado, noticiário, além de um ensaio e de um ato teatral: Intermezzo. Em No Elemento Sedativo, tem-se, além de pequenos fragmentos de prosa e poesia, um dicionário de nomes. Em Cérebro, Coração e Pavio, aparece uma receita: A Dona Branca Clara; poesias: Pern’ino, O Poema Oval; cartas: Missiva a um Corno, Confessionário, Receita; ato teatral: Serafim no Pretório. O Meridiano de Grenwich segue uma forma quase linear, devido à sua divisão em quatro partes, contendo um epílogo final. Esplendores do Oriente e Fim de Serafim apresentam-se recheados de pequenos fragmentos. Os Antropófagos é marcado por citações, como um fragmento da Conquista Espiritual, de Montoya.
Serafim Ponte Grande apresenta-se assim como uma crítica ferrenha a tudo o que já havia sido produzido, o que fica claro no decorrer dos acontecimentos do livro, no qual a burguesia é duramente criticada. Todos os seus falsos ideais jogados por terra, tornando-se assim quase que um manifesto. A contracapa, na qual se vê as obras renegadas e encontram-se o direito do livro ser traduzido e deformado em todas as línguas, juntamente com o prefácio, escrito pelo próprio Oswald, no qual os escritores tradicionais são cruelmente criticados, até mesmo Mário de Andrade, revelam que a intenção do livro é desarticular, desconjuntar, jogar por terra tudo o que era instituído, tanto o formal quanto a própria cultura burguesa.
Referências Bibliográficas:
CAMPOS, Haroldo de. Serafim: um grande não-livro in Serafim Ponte Grande. 4 ed. São Paulo: Globo, 1994.
ANDRADE, Oswald de. Serafim Ponte Grande. 4 ed. São Paulo: Globo, 1994.


