(Arrufos - Belmiro de Almeida)
Em Quincas Borba, o desejo do narrador de desmascarar a falsa sabedoria aparece a todo momento. Através das personagens, Machado critica pessoas consideradas sábias pela sociedade, como os filósofos e as virtuosas senhoras casadas, no caso, Sofia. O nome desta pode ser entendido como uma ironia feita pelo narrador, devido ao fato de ela trazer a sabedoria em seu nome, mas não fazer justiça, com suas ações, ao seu significado mais elevado. A esposa de Palha usa a sabedoria para se preservar e se promover.
O nome Sofia, no caso da personagem de Machado, não possui como significado o que nos vem primeiramente à mente quando pensamos em sabedoria, ou seja, grande conhecimento. Percebe-se, na leitura do romance, a sabedoria com outros sentidos, os quais nos traz o dicionário Aurélio: “3. prudência, sensatez”. (FERREIRA: 1989, p. 617). A palavra prudência significa, segundo o mesmo dicionário, “cautela”, a qual significa “cuidado para evitar um mal”.
Os significados depreendidos da palavra “sabedoria” nos remetem a outra palavra: esperteza. O comportamento de Sofia pode ser resumido à conduta de alguém que evita o mal, o escândalo, que pensa antes de fazer algo, que é prudente, cautelosa, inteligente, viva, em suma, esperta.
Podemos observar essa sabedoria de Sofia no capítulo L, no qual ela conta a Palha sobre a declaração de amor que Rubião lhe fez quando os dois observavam a lua. Antes de contar como aconteceu a declaração de Rubião, ela solta os cabelos, sacode a cabeça, fazendo assim com que Palha, ao ver sua beleza, se sinta ainda mais temeroso de perdê-la. Sofia utiliza seus dotes femininos para seduzir Palha antes de contar-lhe o ocorrido. O fato de contar sobre a declaração de Rubião é uma atitude esperta. Muitas mulheres preferem omitir os galanteios de outros homens para evitarem o mal, causando assim um mal maior quando seus maridos descobrem a verdade. Sofia, espertamente, prefere tornar seu marido cúmplice da situação que vivencia, preservando assim seu casamento e tornando-se mais honesta e digna aos olhos de Palha. Apesar de se sentir mal com a presença de Rubião, Sofia continua a aceitá-la, devido ao pedido do marido que devia dinheiro a ele e também devido à sua frivolidade, ao amor que sentia pelas jóias que Rubião lhe dava.
No capítulo CLIII, no qual Rubião, em um de seus acessos de loucura, acreditando ser Napoleão, faz outra declaração de amor a Sofia, ele oferece a ela um solitário que trazia no dedo. Nesse capítulo fica clara a esperteza de Sofia, que, apesar de frívola, ou seja, fútil, não deixa que seu desejo a faça esquecer a prudência. Podemos observar esse acontecimento no seguinte parágrafo: “como Sofia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e ofereceu-lhe o solitário que tinha no dedo; e ela, porém, conquanto amasse as jóias e tivesse a intuição dos solitários, recusou medrosamente a oferta.” (ASSIS:1997, p. 238).
Sofia é tão esperta, que nesse acontecimento da carruagem, ao se despedir de Rubião, convida-o para ir visitar Palha, tirando assim qualquer suspeita de traição que houvesse passado pela mente do lacaio, o qual ouvia as declarações de amor a ela feitas por Rubião. Todas as atitudes de Sofia são cheias de esperteza, as quais chegam à “velhacaria”, como acontece no capítulo CLXI, no qual ela sonha que Carlos Maria, por quem se sentia atraída, é assassinado, e, para que Palha não desconfie de nada, diz a ele que estava assustada porque sonhou que ele havia sido assassinado. Faz assim com que Palha acredite ainda mais em seu amor por ele.
Comparando Sofia e D. Fernanda, tendo como base o capítulo CLXXXVIII, percebemos o quanto Sofia é falsa. Sofia mostra seu verdadeiro caráter, sua frivolidade, quando se sente mal com a sujeira da casa de Rubião e tacha D. Fernanda em pensamento de “romântica ou afetada”. (ASSIS: 1997, p.286). D. Fernanda simplesmente revela um lado humano que a falsa sabedoria de Sofia não possui. Sofia é frivolidade, gelo, pensa apenas em si própria, contrapondo-se a D. Fernanda, a qual valoriza o ser humano, uma mulher piedosa, por isso criticada por Sofia.
O exterior de Sofia mostra uma mulher que todos os homens gostariam de possuir, uma mulher sábia, à semelhança da mulher descrita no capítulo 31 dos Provérbios de Salomão, amorosa, que nunca envergonha o marido, dando-lhe apenas motivo de felicidade. No interior de Sofia encontramos uma personagem diferente, insatisfeita, que quer sempre ser agradada e que apenas através de sua sabedoria de “velhaca”, mantém-se desejada.
Referências Bibliográficas:
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 28ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2004.
SCHWARZ, Roberto. Um Mestre na Periferia do Capitalismo. 4ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000.


