(Arrufos - Belmiro de Almeida)
Machado de Assis aborda o romantismo em seu romance de forma irônica. Critica as relações amorosas de suas personagens, mostrando que essas se encontram impregnadas de dúbias intenções. Depreende-se na leitura de Quincas Borba que o amor é apenas uma ponte que liga as personagens a um interesse maior, como à obtenção de riqueza, à obtenção da admiração das outras pessoas, à obtenção de um lugar mais respeitado na sociedade. Sofia é usada por Palha para que ele possa ser admirado e invejado; D. Tonica deseja o casamento apenas porque está velha e a sociedade a cobra; Carlos Maria deseja ser adorado; Rubião é usado por Sofia para que ela aumente sua coleção de jóias.
No capítulo CXXII a ironia de Machado aparece de forma clara. Os pensamentos de Carlos Maria mostram o que realmente ocorre na mente de um romântico. O desejo maior de Carlos Maria é ser admirado. Sente-se feliz por estar noivo e pela satisfação que esse estado lhe traz, ou seja, sente que todos celebram e admiram seu garbo, sua felicidade de noivo. Passeia a cavalo como um dândi, admirando a natureza, a qual faz festa quando ele passa. Ele é a figura principal do cenário em que se encontra, a natureza é apenas a extensão da sua felicidade. O que tira Carlos Maria desse profundo egocentrismo é um papagaio, o qual não se sensibiliza com a sua pose. Essa quebra dos românticos pensamentos do noivo se dá porque o papagaio fala a sua língua, por isso simboliza o mundo concreto em que ele vive. O narrador nos mostra que “Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafações da pessoa humana...” (ASSIS: 1997, p. 201). Depreende-se que Machado procura ironizar com o incidente do papagaio o fato de os românticos pensarem que apenas aqueles que estão acima das coisas terrenas amam e são amados. O papagaio pode ser entendido como uma metáfora das pessoas realistas, as quais não vêem o amor como o noivo em questão o vê, sendo consideradas assim, por este, como seres humanos imperfeitos, mal acabados, contrafações da pessoa humana, seres que não sabem o que é belo e nem sabem amar, por isso, segundo Carlos Maria, incomodados com seu romantismo.
Os pássaros, as borboletas, a velha casa em ruína, não falam, tornando assim possível que os românticos, como Carlos Maria, idealizem o que esses elementos paisagísticos possam expressar em sua linguagem incompreensível, por isso bela. Carlos Maria deseja provocar em Maria Benedita a mesma admiração que sente pelas cambaxirras. Deseja falar-lhe das coisas belas, idealizadas, incompreensíveis aos papagaios e macacos do mundo. Pensa em Maria Benedita “ajoelhada, com os braços postos em seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.” (ASSIS:1997, p. 202). Depreende-se, pela visão do narrador, que o desejo dos românticos culmina na transformação do companheiro ou companheira em nada, em objeto. Como centro de todas as coisas de seu universo, Carlos Maria não se preocupa em amar, não pensa no quanto ama Maria Benedita. Pensa apenas no quanto ele seria amado e adorado ao se deixar amar, no bem que esse casamento faria ao seu ego. A gratidão de Maria Benedita é o que faz com que ele se sinta bem. A consciência de que se é necessário para a felicidade de outra pessoa.
Maria Benedita, no capítulo seguinte, se vê em seus pensamentos ajoelhada aos pés do marido, da mesma forma que Carlos Maria a via em pensamentos. Carlos Maria pensava em “como a tornaria feliz!”, Maria Benedita, casando seu pensamento com o dele pensava em “como ele me fará feliz!”. Os desejos de Carlos Maria e Maria Benedita se casam devido ao desejo dele de ser adorado e ao desejo dela de adorar. O narrador marca assim o lugar que possui os casais em uma relação romântica do século XIX, principalmente marcada pelos escritores românticos: um precisa morrer para que o outro viva. Os românticos vivem em prol um do outro, divinizando o companheiro. Machado mostra assim a crueldade embutida nessa forma de amar, na qual se encontra em maior relevo a vaidade e o desejo de dominar a pessoa amada, de se sentir necessário e importante.
Referências Bibliográficas:Machado de Assis aborda o romantismo em seu romance de forma irônica. Critica as relações amorosas de suas personagens, mostrando que essas se encontram impregnadas de dúbias intenções. Depreende-se na leitura de Quincas Borba que o amor é apenas uma ponte que liga as personagens a um interesse maior, como à obtenção de riqueza, à obtenção da admiração das outras pessoas, à obtenção de um lugar mais respeitado na sociedade. Sofia é usada por Palha para que ele possa ser admirado e invejado; D. Tonica deseja o casamento apenas porque está velha e a sociedade a cobra; Carlos Maria deseja ser adorado; Rubião é usado por Sofia para que ela aumente sua coleção de jóias.
No capítulo CXXII a ironia de Machado aparece de forma clara. Os pensamentos de Carlos Maria mostram o que realmente ocorre na mente de um romântico. O desejo maior de Carlos Maria é ser admirado. Sente-se feliz por estar noivo e pela satisfação que esse estado lhe traz, ou seja, sente que todos celebram e admiram seu garbo, sua felicidade de noivo. Passeia a cavalo como um dândi, admirando a natureza, a qual faz festa quando ele passa. Ele é a figura principal do cenário em que se encontra, a natureza é apenas a extensão da sua felicidade. O que tira Carlos Maria desse profundo egocentrismo é um papagaio, o qual não se sensibiliza com a sua pose. Essa quebra dos românticos pensamentos do noivo se dá porque o papagaio fala a sua língua, por isso simboliza o mundo concreto em que ele vive. O narrador nos mostra que “Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafações da pessoa humana...” (ASSIS: 1997, p. 201). Depreende-se que Machado procura ironizar com o incidente do papagaio o fato de os românticos pensarem que apenas aqueles que estão acima das coisas terrenas amam e são amados. O papagaio pode ser entendido como uma metáfora das pessoas realistas, as quais não vêem o amor como o noivo em questão o vê, sendo consideradas assim, por este, como seres humanos imperfeitos, mal acabados, contrafações da pessoa humana, seres que não sabem o que é belo e nem sabem amar, por isso, segundo Carlos Maria, incomodados com seu romantismo.
Os pássaros, as borboletas, a velha casa em ruína, não falam, tornando assim possível que os românticos, como Carlos Maria, idealizem o que esses elementos paisagísticos possam expressar em sua linguagem incompreensível, por isso bela. Carlos Maria deseja provocar em Maria Benedita a mesma admiração que sente pelas cambaxirras. Deseja falar-lhe das coisas belas, idealizadas, incompreensíveis aos papagaios e macacos do mundo. Pensa em Maria Benedita “ajoelhada, com os braços postos em seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.” (ASSIS:1997, p. 202). Depreende-se, pela visão do narrador, que o desejo dos românticos culmina na transformação do companheiro ou companheira em nada, em objeto. Como centro de todas as coisas de seu universo, Carlos Maria não se preocupa em amar, não pensa no quanto ama Maria Benedita. Pensa apenas no quanto ele seria amado e adorado ao se deixar amar, no bem que esse casamento faria ao seu ego. A gratidão de Maria Benedita é o que faz com que ele se sinta bem. A consciência de que se é necessário para a felicidade de outra pessoa.
Maria Benedita, no capítulo seguinte, se vê em seus pensamentos ajoelhada aos pés do marido, da mesma forma que Carlos Maria a via em pensamentos. Carlos Maria pensava em “como a tornaria feliz!”, Maria Benedita, casando seu pensamento com o dele pensava em “como ele me fará feliz!”. Os desejos de Carlos Maria e Maria Benedita se casam devido ao desejo dele de ser adorado e ao desejo dela de adorar. O narrador marca assim o lugar que possui os casais em uma relação romântica do século XIX, principalmente marcada pelos escritores românticos: um precisa morrer para que o outro viva. Os românticos vivem em prol um do outro, divinizando o companheiro. Machado mostra assim a crueldade embutida nessa forma de amar, na qual se encontra em maior relevo a vaidade e o desejo de dominar a pessoa amada, de se sentir necessário e importante.
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 28ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2004.
SCHWARZ, Roberto. Um Mestre na Periferia do Capitalismo. 4ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000.



Bjs
José